As Florestas e suas Teias Subterrâneas

Chris Bonato, outubro, 2016

green-forest-landscape-with-trees-youwall-free2

Ao caminhar pela floresta, algo invisível a um passante desinformado está acontecendo sob seus pés.

 Uma vasta teia subterrânea formada pela associação de raízes arbóreas a fungos (Mycorrhiza) conecta os seres da superfície permitindo um usufruto coletivo e garantindo a sobrevivência da própria floresta.

A denominação Mycorrhiza foi cunhada no século 19 pelo biólogo Albert Bernard Frank, para a parceria entre fungos (mykós) e raízes (riza), do grego.

As hifas do fungo espalham-se pelo solo, infiltram-se nas extremidades das raízes e estabelecem contato intracelular em busca de moléculas de açúcares, uma vez que os fungos não conseguem sintetizá-los pois não fazem fotossíntesemicelio_220px-20100815_1818_mold

Hifas são filamentos tubulares do fungo, muito finos e ramificados,  criando uma rede expandida. Uma grande massa de hifas é denominada micélio. A imagem ao lado cobre 1mm². cloroplasto

Os vegetais, por sua vez, conseguem fotossintetizar porque são seres que contem clorofila. A clorofila é um foto receptor da luz solar que lhes confere a cor verde. A energia obtida pelo foto receptor é utilizada na síntese de carboidratos (açúcares) a partir de gás carbônico (CO2) e água. Na microscopia, à direita, pigmentos de clorofila empilham-se dentro do cloroplasto.

Os carboidratos, sintetizados usualmente nas folhas, são transferidos para os troncos e  raízes alcançando finalmente os fungos, parceiros subterrâneos das árvores. Em troca dos carboidratos recebidos, os fungos entregam às árvores, água e nutrientes minerais coletados do solo, tais como fósforo e nitrogênio, uma vez que a massa de hifas (micélio) do fungo espalha-se por uma enorme superfície ampliando a capacidade de absorção de minerais pelas raízes da planta. Esta associação sutil e profunda de benefício mútuo é uma simbiose.

Tal estrutura complexa e colaborativa data de 450 milhões de anos e recebeu recentemente a denominação Wood Wide Web (Ampla Rede Madeireira) ou Earth’s Natural Internet (Internet Natural da Terra), como denominado por Paul Stamets, nos idos de 2007.

Todavia esta troca entre a planta e o fungo mostrou-se muito mais ampla e complexa do que se imaginava até recentemente.  

Quando pesquisadores da floresta aplicaram na copa das árvores um isótopo estável de carbono como marcador (¹³C) foi possível mostrar que o carbono assimilado por um abeto de 40 m era distribuído à árvores vizinhas de outra espécie, tais como faia, lariço e pinheiro através das raízes recobertas de fungo. Tal troca bidirecional e interespecífica, assistida pela teia de mycorryza, correspondia a cerca de 40% do carbono das raízes equivalente a uma transferência, de árvore à árvore, de cerca de 280 kg por hectare por ano (Klein et al., 2016).

Os Isótopos Naturais de Carbono são:  ¹²C (98,89% de todo o carbono), ¹³C (1.1%) e ¹4C (radioativo; 0,001%).

Distribuição de recursos ocorre também  quando uma árvore, que está morrendo, dispõe de si própria beneficiando a comunidade. Ou então quando, durante um período de seca, as árvores menos afetadas podem suprir de carbono as árvores mais fragilizadas, garantindo a recuperação da floresta. Esta rede transfere, além de nutrientes, advertências, de sorte que uma árvore atacada por pulgões (afídios) avisa as vizinhas da necessidade de elevar suas respostas químicas defensivas antes dos pulgões a alcançarem (Fleming, N.). “Comunicação” entre as árvores através de hormônios aéreos, já era conhecida mas a novidade de comunicação subterrânea via teia de micorriza (miconet) parece bem mais eficiente.

Para nossa mente este é um fenômeno surpreendente vez que associamos  comunicação à fala, à visão, às emoções, à existência de um cérebro. E, de repente, nos deparamos com uma sofisticada linguagem silenciosa que repassa informações complexas utilizando-se de uma teia subterrânea milenar, através da qual recebem informação químicas sobre perigos ou benesses; através da qual repassam nutrientes entre si; através da qual  garantem a sobrevivência de cada uma individualmente assim como das futuras gerações de espécies assim conectadas.

Onde começam e onde terminam estes seres? Poderíamos imaginar a floresta como um único superorganismo, uma rede social onde a existência cooperativa suplanta a competição? (Yong, Ed.,2016). Nos surpreendemos com este ativo mundo subterrâneo porque normalmente só enxergamos o que está acima do chão e não muito distante de nosso alcance. A linguagem de texturas, odores, sabores, sons e movimentos das plantas foi se distanciando de nós. arthurrackham_grimm5-2

Ilustração de Arthur Rackham para os contos de fada dos irmãos Grimm, datada de 1917 in Brainpickings,2016

Peter Wohlleben, guardião, na última década,  de  uma floresta de faias nas montanhas Eifel da Alemanha Ocidental, relata em seu livro A Vida Secreta das Árvores que, ao contrário do que pensamos ou aprendemos sobre competição e sobrevivência do mais forte,  as árvores de uma floresta convivem com suas vizinhas, adequando-se aos espaços disponíveis, protegendo as mais jovens e socorrendo as mais frágeis ao repassar nutrientes através da rede de fungos associados a suas raízes.  “Árvores-Mãe” agiriam como um conector central recebendo e retransmitindo informações a  todas as árvores da floresta estendendo seus filamentos (fungos + raízes) a outros indivíduos, à diferentes espécies e a enormes distâncias (Rhodes, C., 2015). Alguns encontram uma analogia funcional ao sistema nervoso humano, mas este é um tipo de comparação que não esclarece muito.

 Para Wohlleben, as florestas de quase mil anos são mantidas pela cooperação entre os indivíduos que, não raro, são geneticamente distantes. Na escala de tempo das árvores, bem superior a nossa, elas simplesmente estão em consonância com um Universo profundamente interconectado.

Nós, humanos, usufruímos, hoje, de uma rede eletrônica, óptica e sem fio desde a década de 1980, para comunicação rápida à longa distância. Uma rede recente na nossa população a qual, aliás, povoa o planeta Terra há muito pouco tempo. Se pensarmos que a separação evolutiva entre Homem e Chimpanzé começou há cerca de 5 milhões de anos (O que somos?) e que a espécie Homo sapiens  iniciou seu espalhamento da África para todo o Planeta Terra há apenas cerca de 200.000 anos (Smithsonian),  concluímos que ainda temos muito a aprender sobre conexões… 

A nossa rede eletrônica  externa não se conecta organicamente a nós,  bípedes com pés no chão e cabeça no ar em posição “inversa” a das árvores cujo sistema de comunicação é em grande parte subterrâneo e organicamente interligado (miconet).

Até onde posso compreender, não seria auto-suficiente como a Teia Micorrízica.  Só para tentar entender, no caso de uma desconexão eletrônica mundial nossa rede deixa de funcionar. Já desabilitar a rede subterrânea de Micorrizas seria muito mais difícil, mesmo porque ela se auto-regenera. É viva, não eletrônica. Assim, comparar a teia micorrízica à internet (World Wide Web), não é adequado e talvez seja também um pouco pretencioso, na minha opinião. Quem sabe daqui um milhão de anos…

Leituras:

Fleming, N., 2014 – Plants talk to each other using an internet of fungus - BBC  

Frazer,J., 2015  – Dying trees can send food to neighbors of different species - Scientific American

Klein, T., Siegwolf, R.T.W., Körner, C., 2016 – Belowground carbon trade among tall trees in a temperate forest. Science 352:342-344, 2016

McGrane, S., 2016 – German Forest Ranger Finds That Trees Have Social Networks, Too – New York Times, Jan.

Popova, M., 2016 – The secret life of trees: The astonishing Science of what trees feel and how they communicate – Brain Pickings, oct. 2016

Rhodes, C., 2015 - The Whispering World of Plants: “The Wood Wide Web” – Energy Balance, nov. 18

tara_nightlifeoftrees12

Thompson, S., 2016  - How trees communicate via a Wood Wide Web – TheConversation, Sep. 2016

Yong, Ed, 2016 – The wood wide web -The Atlantic

Wohlleben, Peter, 2016- The Hidden Life of Trees: What They Feel, How They Communicate—Discoveries From a Secret World

À direita: Arte e folclore da tribo Gonde, na Índia Central, reunidas no livro The night life of trees , ed. Tara Books. Ilustrações de: Ram Singh Urveti, BhajjuShyam e Durga Bai.