Adoçantes artificiais e a epidemia global de obesidade e diabetes

 

Comentário: Chris Bonato, nov.2014  gaia@aprendendobiologia.com.br

Artigo recentemente publicado na revista científica, Nature (Artificial sweeteners induce glucose intolerance by altering the gut microbiota- Nature 514, 181-186, 2014) alerta para o fato de que os adoçantes artificiais poderiam estar contribuindo para o estabelecimento da epidemia global de obesidade e diabetes ao alterarem a microbiota intestinal, que é o conjunto de microrganismos, incluindo bactérias, fungos, vírus e protozoários, que habitam o intestino humano.

Estudos anteriores já haviam sugerido uma associação entre o uso de adoçantes artificiais e a ocorrência de desordens metabólicas tais como obesidade e diabetes. Todavia, pela primeira vez foi estabelecida uma relação entre consumo de adoçantes artificiais, desordem metabólica e alteração na microbiota intestinal.

O mercado para adoçantes artificiais encontra-se em franca expansão de sorte que, se novas investigações continuarem confirmando os dados obtidos pelo grupo de pesquisa liderado por Eran Elinay do Instituto de Ciência Weizmann, em Rehovot, Israel, a indústria alimentícia terá dores de cabeça. As agências reguladoras que fiscalizam a segurança dos aditivos alimentícios declararam que, “no devido tempo, os novos dados deverão ser analisados por especialistas para revisão”.

Nos experimentos realizados pelo grupo de pesquisa de Eran Elinay, camundongos foram alimentados com diferentes adoçantes: sacarina, sucralose e aspartame. Após 11 semanas os animais apresentaram intolerância à glicose, um sinal de propensão a desordens metabólicas.

Alguns camundongos foram alimentados com dieta normal e outros com dieta altamente calórica. A água que tomavam foi “batizada” com glicose, para alguns, ou com glicose mais sacarina, para outros. Os camundongos que ingeriram sacarina, tanto os submetidos à dieta normal quanto à calórica, desenvolveram forte intolerância à glicose, comparando-se com os que não receberam sacarina. Todavia, quando os animais eram tratados com antibiótico para eliminar as bactérias do intestino, impedia-se o desenvolvimento de intolerância à glicose. Além disto, quando os pesquisadores transferiram as fezes dos camundongos tratados com sacarina, intolerantes à glicose, para o intestino de camundongos com intestino limpos, estes camundongos também se tornaram intolerantes à glicose, indicando que a sacarina modificara o microbioma.

Em humanos, testes preliminares com sete voluntários saudáveis que não utilizavam adoçantes artificiais, mostraram que após uma semana de ingestão da dose máxima diária aceitável do edulcorante, quatro dos voluntários tornaram-se intolerantes à glicose e seus microbiomas sofreram modificações típicas de susceptibilidade a doenças metabólicas. Todavia, os outros três parecem resistentes aos efeitos da sacarina, indicando variação individual.

Nenhum mecanismo foi ainda proposto para o efeito dos adoçantes artificiais sobre o microbioma. Um conhecimento mais acurado deste fenômeno poderá “nos inspirar no desenvolvimento de novas abordagens terapêuticas para doenças metabólicas”, diz Elinav.

A nós, creio que o mais prudente seria evitar o uso de tais adoçantes artificiais ou pelo menos sermos mais parcimoniosos.

Aguardemos as novas descobertas.